O El Niño é um fenômeno climático de ordem natural e recorrente, mas que tem se mostrado cada vez mais frequente e com maior intensidade. Fatores provocados pela ação humana, como o desmatamento, a queima de combustíveis fósseis e o avanço da agropecuária, agravam fortemente os efeitos desse evento. Essa situação, combinada à desigualdade social e à crise climática, expõe de forma perigosa os ecossistemas sensíveis e as populações mais vulnerabilizadas.

A combinação desses eventos extremos com a falta de um planejamento público adequado resulta no aumento drástico dos prejuízos econômicos, sociais e ambientais no país.

A Origem do “Menino” e a Relação com o Aquecimento Global

Segundo a agência científica NOAA, o termo “El Niño” foi cunhado há cerca de 200 anos por pescadores no Peru. Esses pescadores notaram que as águas do Oceano Pacífico esquentavam em determinados períodos próximos ao Natal, batizando o evento com a expressão em espanhol em homenagem ao Menino Jesus.

Atualmente, a relação do fenômeno com as mudanças climáticas é direta e preocupante: os oceanos absorvem cerca de 90% de todo o excesso de calor que é gerado pela emissão de gases de efeito estufa (GEE). Esse aquecimento afeta diretamente os regimes de ventos e chuvas, o que acaba potencializando os eventos climáticos extremos.

Os Impactos Divididos pelas Regiões do Brasil

O Brasil carrega marcas recentes da passagem do El Niño no ano de 2024, quando enfrentou a maior estiagem de toda a sua história. Nesse período específico, rios secaram, fortes queimadas geraram fumaça no Pantanal e na Amazônia, e o Rio Grande do Sul lidou com chuvas que causaram o seu pior desastre climático.

As consequências se dividem de formas distintas pelo território:

  • Norte, Nordeste e Centro-Oeste: O fenômeno agrava as secas, intensifica o calor extremo e aumenta as ocorrências de queimadas.
  • Sudeste: A região fica mais propensa à baixa umidade, às ondas de calor e também ao risco de insegurança hídrica.
  • Sul: Há o registro frequente de chuvas acima da média, o que provoca deslizamentos de terra e enchentes.
  • Em todo o país: Os consumidores podem sofrer com o aumento nos preços da energia, da água e dos alimentos.

Ameaça à Saúde Pública e ao Bolso

A frequência do calor extremo disparou no Brasil, saltando de 7 dias de ondas de calor ao ano (marca de 60 anos atrás) para 52 dias anuais na atualidade. Consequência direta dessa mudança, mais de 48 mil brasileiros morreram em decorrência do calor extremo ao longo de duas décadas, atingindo de forma mais severa idosos, pessoas negras, mulheres e pessoas com baixa escolaridade, segundo levantamento da Fiocruz de 2024.

Na área econômica, o bolso do brasileiro sofre pressões semelhantes. Durante o El Niño de 2015, os gastos com alimentação saltaram 12% no país. A seca prolongada reduz os níveis dos reservatórios (podendo gerar insegurança hídrica no Sudeste semelhante à crise de São Paulo em 2015) e diminui a geração de energia hidrelétrica, o que pode elevar bastante as tarifas cobradas.

O Papel da Ação Humana e a Necessidade de Adaptação

As queimadas no Brasil têm, em sua maioria, origem na ação humana e tendem a piorar em anos de El Niño. Em 2024, a fumaça afetou 10 estados brasileiros, prejudicando a respiração de populações periféricas, ribeirinhas e indígenas, chegando a violar as diretrizes de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde (OMS), de acordo com relatório do Greenpeace.

O agronegócio apresenta um papel duplo nesse cenário: é um dos setores mais afetados pelas mudanças climáticas extremas, mas o seu avanço sobre os biomas impulsiona o desmatamento, que é hoje a principal fonte de emissões do país. A crise também afeta os mares, onde o calor excessivo provoca o branqueamento de recifes de coral, o que prejudica tanto a proteção do litoral contra erosões quanto a segurança alimentar do país, visto que mais de 60% dos pescados nacionais vêm da pesca artesanal.

A falta de preparo para lidar com tudo isso é evidenciada pela plataforma Adapta Brasil (do MCTI), que aponta que 65% dos municípios do país possuem uma capacidade apenas baixa de adaptação climática. Em um cenário de ano eleitoral, especialistas destacam a importância de exigir dos órgãos públicos e das prefeituras a elaboração de planos de adaptação, direcionando os votos para candidaturas focadas na proteção ambiental, fiscalização e combate ao desmatamento.

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