O mercado de benefícios corporativos no Brasil, que durante décadas foi dominado por um pequeno grupo de empresas, acaba de ganhar um novo competidor de peso. O C6 Bank anunciou a compra de 100% das operações da startup Alymente, marcando sua entrada oficial em um setor que movimenta mais de R$ 150 bilhões anualmente.

A Chegada da “C6 Benefícios”

Fundada em 2017 por ex-executivos da Stone, a Alymente se destacou no mercado ao oferecer um cartão multibenefícios. O produto da startup vai muito além dos tradicionais vale-refeição e vale-alimentação, englobando também áreas como transporte, apoio psicológico, acesso a academias e telemedicina. Atualmente, a Alymente atende mais de 100 mil beneficiários e possui uma carteira com cerca de 1.200 empresas, incluindo grandes corporações como Nissan, Heineken e Pernod Ricard.

Com a conclusão do negócio — que ainda depende do sinal verde do Banco Central, previsto para sair em um prazo de dois a três meses —, a marca Alymente deixará de existir. A nova operação passará a se chamar C6 Benefícios, e continuará emitindo cartões com a bandeira Mastercard. O comando da nova área ficará a cargo de André Purri, um dos cofundadores da startup.

Estratégia de Crescimento e Venda Cruzada

Para o C6 Bank, a aquisição funciona como um atalho estratégico e inorgânico de expansão. Segundo Ricardo Botelho, head de pessoa jurídica da instituição, o segmento de benefícios era a peça que faltava para completar as soluções oferecidas ao público empresarial. Ao comprar uma operação já estruturada e com clientes de peso, o banco ganha tração imediata para escalar a nova frente de negócios.

O objetivo final é unificar a gestão e integrar tudo no aplicativo do C6. Assim, empresas de todos os portes poderão administrar de um só lugar desde suas soluções bancárias (conta digital, crédito e recebíveis) até os recursos humanos e as ferramentas da Alymente. A estratégia conta fortemente com as vendas cruzadas (cross-sell): ofertar a C6 Benefícios aos atuais clientes corporativos do banco e, paralelamente, vender os produtos bancários do C6 para a base de clientes que já utilizava a Alymente.

Mudanças Regulatórias e o Fim do Oligopólio

A entrada agressiva do C6 Bank acontece em meio a uma profunda transformação no setor, que antes era comandado isoladamente por Ticket, Alelo, Pluxee (antiga Sodexo) e VR. Juntas, essas quatro companhias ainda detêm cerca de 80% do setor.

As barreiras de entrada despencaram por conta de recentes mudanças regulatórias no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). Entre as principais alterações vigentes estão:

  • Arranjo Aberto: Agora, qualquer cartão de benefícios deve, obrigatoriamente, ser aceito nas maquininhas convencionais de pagamento. Isso eliminou o formato de “arranjo fechado”, em que as grandes empresas funcionavam como bandeiras, emissoras e adquirentes exclusivas, bloqueando novatas.
  • Fim dos Rebates e Limite de Taxas: Foi proibida a prática de conceder grandes descontos (rebates) na negociação com grandes corporações. Além disso, o arcabouço limitou as taxas cobradas diretamente dos restaurantes a um teto máximo de 3,6%.

Uma Competição de Pesos-Pesados

Com o caminho pavimentado pela regulação, startups e empresas consolidadas entraram na arena para brigar com os “velhos conhecidos” (que, muitas vezes, possuem as grandes instituições financeiras do país como sócias). O C6 Bank competirá não só com as líderes estabelecidas, mas também com novatas que vêm recebendo aportes expressivos, como a Flash e a Caju, e com gigantes de outros nichos que estão entrando de vez nesse mercado, a exemplo do iFood, PicPay e o BTG Pactual.

Contudo, a bagagem do C6 Bank sugere bastante fôlego para a disputa. Com uma carteira de 42 milhões de clientes, a instituição financeira encerrou a primeira metade de 2026 exibindo lucros expressivos: reportou um lucro líquido de R$ 1,25 bilhão (crescimento de 20% em relação ao ano anterior), com uma receita líquida avançando 48%, para a marca de R$ 6,26 bilhões.

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