A estratégia financeira que rompeu com a filosofia de Steve Jobs, inflou o valor de mercado da gigante de tecnologia e se tornou o maior programa de recompra da história corporativa dos Estados Unidos.

Desde que Tim Cook assumiu o comando da Apple, a empresa passou por uma metamorfose que vai muito além do lançamento de novos iPhones ou do sucesso dos AirPods. A principal revolução de Cook, no entanto, não ocorreu nos laboratórios de design em Cupertino, mas sim nas planilhas de Wall Street: a Apple executou o maior programa de recompra da história corporativa americana, adquirindo mais de US$ 700 bilhões em ações em circulação.

Mas o que levou a empresa mais valiosa do mundo a investir uma quantia superior ao PIB de muitos países em suas próprias ações?

O contraste de filosofias: De Steve Jobs a Tim Cook

Para entender a magnitude dessa decisão, é preciso voltar à era de Steve Jobs. O lendário cofundador da Apple era radicalmente contra a distribuição de dividendos e a recompra de ações. Sua filosofia era clara: “produtos excelentes criam preços de ações excelentes”. Jobs preferia acumular um vasto caixa para garantir que a empresa tivesse poder de fogo infinito para inovação, pesquisa e desenvolvimento.

Tim Cook, por outro lado, adotou uma visão muito mais pragmática e amigável ao mercado financeiro. Enfrentando pressões de investidores ativistas (como Carl Icahn) e conselhos de lendas do mercado (como Warren Buffett), Cook percebeu que o colossal caixa da Apple estava ocioso. A partir de 2012 e 2013, ele iniciou uma mudança de rota histórica, passando a devolver ativamente o capital aos acionistas.

A mágica financeira por trás das recompras

A recompra de ações é uma manobra financeira engenhosa. Quando a Apple vai ao mercado e compra suas próprias ações para cancelá-las, ela reduz a quantidade total de papéis disponíveis na bolsa. A lei da oferta e da demanda entra em ação: com menos fatias do bolo disponíveis, cada fatia restante passa a valer mais.

O impacto mais direto dessa estratégia pode ser visto no Lucro Por Ação (EPS – Earnings Per Share). Como o lucro total da empresa passa a ser dividido por um número menor de ações (a Apple reduziu suas ações em circulação em mais de 40% ao longo de sua gestão), o lucro por ação sobe consideravelmente, mesmo que o lucro líquido global da empresa se mantenha estável. Estima-se que, sem o programa de recompras, o EPS atual da Apple seria drasticamente menor, o que certamente derrubaria a cotação da empresa.

Um escudo contra a estagnação do crescimento

A estratégia de recomprar US$ 700 bilhões serviu também como um escudo em momentos de turbulência. Nos últimos anos, a Apple enfrentou desafios como a saturação do mercado de smartphones, o alongamento do ciclo de troca do iPhone pelos consumidores e um crescimento mais lento no volume de vendas de hardware.

Enquanto a receita de produtos físicos esbarrava em um teto de crescimento, a engenharia financeira das recompras mascarava essa fraqueza operacional. O mercado continuou precificando a Apple como uma ação de alto crescimento, muito por conta do retorno constante de capital e do avanço de sua divisão de Serviços (como iCloud, Apple Music e App Store), que possui margens de lucro muito maiores.

O legado de um operador magistral

Embora críticos apontem que a Apple sob Tim Cook investiu muito mais dinheiro recomprando ações (defendendo seu monopólio) do que em Pesquisa e Desenvolvimento (criando novas disrupções), é inegável que a estratégia foi um sucesso retumbante para os investidores.

Quando Cook assumiu o cargo definitivamente, a Apple valia cerca de US$ 350 bilhões. Hoje, é uma gigante multitrilionária. Os US$ 700 bilhões em ações recompradas não apenas enriqueceram fundos de pensão e investidores ao redor do mundo, como também provaram que Tim Cook entendeu exatamente o que Wall Street queria: previsibilidade, solidez e um fluxo constante de capital de volta para os donos do negócio.

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