As gigantes brasileiras do setor de proteínas, JBS e BRF, protagonizam uma intensa disputa internacional por um dos segmentos que mais crescem na indústria global de alimentos: o mercado halal. Com um faturamento estimado em mais de US$ 2 trilhões anuais e impulsionado por uma população de consumidores muçulmanos que ultrapassa 1,9 bilhão de pessoas, o setor tornou-se a nova grande fronteira de expansão para as multinacionais. O principal cenário dessa concorrência estratégica é a Arábia Saudita.
Sadia Halal e o Fundo Saudita: A Cartada da BRF
A BRF (dona da Sadia), em parceria com a Marfrig, estreitou laços diretamente com o capital do Oriente Médio. Como parte dessa estratégia, foi anunciada a criação da Sadia Halal, uma empresa global exclusiva para a produção e distribuição de alimentos permitidos pelas leis islâmicas.
O negócio é avaliado em impressionantes US$ 2,07 bilhões (cerca de R$ 10,3 bilhões) e conta com a participação direta da HPDC, empresa ligada ao fundo soberano da Arábia Saudita, que passou a deter 10% do capital da nova companhia mediante aportes milionários. O plano da BRF no país árabe é agressivo e prevê a realização de um IPO (Oferta Pública Inicial) na bolsa local até 2027. O objetivo final é consolidar a Sadia Halal como uma das maiores plataformas do segmento, mirando uma base de mais de 350 milhões de consumidores espalhados por 14 países.
JBS Acelera e Expande Produção Local
Como resposta imediata à ofensiva da concorrente, a JBS acelerou sua presença e direcionou investimentos maciços para operar de dentro do território saudita. A companhia anunciou um aporte de US$ 85 milhões focado na expansão de suas fábricas nas cidades de Jeddah e Dammam.
Com foco em produtos de maior valor agregado sob a marca Seara, a unidade de Jeddah recebeu a missão de dobrar a sua capacidade produtiva até o final de 2026. A tática da JBS transforma a Arábia Saudita em um hub global de exportação halal, desenhado para abastecer não apenas o Oriente Médio, mas também o Sudeste Asiático. Os resultados comerciais já começaram a aparecer: a empresa alcançou recentemente o terceiro lugar em participação de mercado (market share) de frango congelado nos países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), ostentando 93% de reconhecimento de marca na região.

Por que o Selo Halal Vale Tanto?
A palavra “halal” significa “permitido” na tradição islâmica. Na indústria alimentícia, o termo atesta que o produto foi preparado em estrita conformidade com as regras religiosas, o que envolve padrões rigorosos de abate animal, processamento, manuseio e higiene.
Muito além da questão religiosa, o selo transformou-se em um sinônimo de segurança alimentar e alta qualidade sanitária, atraindo até mesmo consumidores não-muçulmanos. Com projeções indicando que as vendas de alimentos e bebidas halal cheguem perto da marca dos US$ 1,94 trilhão até 2028, a disputa silenciosa entre JBS e BRF não apenas redefine as operações de ambas, mas também consolida o Brasil como uma potência geopolítica no fornecimento global de proteínas para o mundo árabe.


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